Retorno das bruxas dos anos 1990 só explicitou falhas de Hollywood

Não me surpreende que 2020 tenha trazido de volta algumas de nossas bruxas favoritas dos anos 1990 – a Grande Bruxa de Convenção das Bruxas e o quarteto de Jovens Bruxas, talvez as maiores responsáveis pela popularização do tema há algumas décadas. Estamos em uma era de reboots, remakes, sequências e adaptações, e nada mais natural do que Hollywood reacender o interesse por mulheres com poderes sobrenaturais, tema que casa muito bem com outra discussão em alta: o empoderamento feminino. Mas confesso que – como já faço há algum tempo – tremi quando soube que esses dois filmes renasceriam este ano, Convenção das Bruxas com uma nova adaptação e Jovens Bruxas com uma sequência, Jovens Bruxas: Nova Irmandade.

Queo livro de Roald Dahl ganhasse uma nova versão não foi exatamente um espanto; Fantástica Fábrica de Chocolates já teve seu remake insatisfatório, e era apenas uma questão de tempo até que a história de feiticeiras do autor retornasse. Confesso que nesse caso me surpreendi mais com a escalação de Robert Zemeckis para o comando do longa, o que instigou minha curiosidade, já que é o nome por trás de alguns dos mais queridos clássicos do cinema. Já o suspense de 1996 foi um outro caso, mais peculiar: a Blumhouse selecionou o quarteto teen do filme de Andrew Fleming para reviver no mundo atual, quase recontando sua história, não fosse por um pequeno detalhe que torna o novo longa um sucessor do original. São dois casos absolutamente distintos, mas no fim das contas, ambos me deixaram com a mesma sensação: uma pena pelas novas gerações, que não terão bruxas mais interessantes para chamar de suas.

Não digo isso com apenas estas duas produções em mente. Eu também cresci com Sabrina e Charmed na televisão, duas séries que também ganharam seus reboots nas telinhas recentemente. E independentemente da qualidade das recentes versões, acho válido questionar o desinteresse da indústria em criar novas histórias para um novo público. Claro que existe o eterno fator, que podemos chamar (bem ousadamente) de “preguiça”. É muito mais fácil – e seguro – trazer de volta histórias que já foram elaboradas e criadas por outras mentes, com personagens que já ganharam o carinho do público por seu próprio mérito.

Os dois casos que estreiam este mês não apenas simbolizam essa “preguiça”como representam algo sobre o estado atual do cinema como um todo. E não apenas por seus defeitos – dos quais já falarei – mas tanto Convenção das Bruxas quanto o novo Jovens Bruxas trazem, também, muito dos aspectos positivos da posição de Hollywood hoje em dia. O clássico de Dahl foi recriado com uma família negra e Jovens Bruxas formou o novo grupo de protagonistas de modo representativo, não apenas levando uma atriz trans ao quarteto principal como também dando a um dos principais personagens um arco de aprendizagem sexual que é o melhor ponto do longa. Tudo isso é um passo na direção certa de diversificar tanto rostos quanto histórias que vemos nas telas. E disso as duas produções podem se orgulhar.

Fonte: Omelete

Postado em 22 de novembro de 2020